O tratamento da Doença de Parkinson evoluiu de forma importante nos últimos anos. Além dos medicamentos orais, atualmente existem terapias avançadas que procuram oferecer uma estimulação dopaminérgica mais contínua, reduzindo as oscilações que alguns pacientes apresentam entre uma dose e outra.

Uma dessas novas opções é a associação de foslevodopa e foscarbidopa, administrada por meio de uma bomba de infusão subcutânea contínua.

Em maio de 2026, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária aprovou no Brasil o registro dessa terapia para pacientes com Doença de Parkinson avançada que apresentam flutuações motoras graves e debilitantes, apesar dos tratamentos disponíveis. A administração é realizada continuamente por via subcutânea, com o objetivo de reduzir as variações na resposta à levodopa ao longo do dia. (Serviços e Informações do Brasil)

Neste artigo, explicarei o que é a foslevodopa, como funciona a bomba de infusão, quem pode ser candidato ao tratamento e quais cuidados precisam ser considerados.

Assista ao vídeo sobre foslevodopa

Também preparei um vídeo explicando os principais conceitos sobre essa terapia:

▶️ Assista ao vídeo “Foslevodopa: novo tratamento para a Doença de Parkinson” no YouTube

O vídeo apresenta uma introdução ao tema. O artigo abaixo acrescenta informações atualizadas sobre a aprovação e o uso da terapia no Brasil.

O que são a foslevodopa e a foscarbidopa?

A foslevodopa e a foscarbidopa são formas modificadas, chamadas de pró-fármacos, da levodopa e da carbidopa.

Isso significa que, depois de administradas, elas são convertidas pelo organismo em:

  • levodopa, que atravessa a barreira hematoencefálica e é transformada em dopamina no cérebro;
  • carbidopa, que reduz a conversão da levodopa em dopamina fora do sistema nervoso central, permitindo que uma quantidade maior de levodopa chegue ao cérebro.

A modificação química torna a formulação suficientemente solúvel para ser administrada continuamente no tecido subcutâneo. Após a infusão, enzimas do organismo convertem a foslevodopa em levodopa e a foscarbidopa em carbidopa. (FDA Access Data)

Portanto, não se trata de um mecanismo completamente diferente daquele utilizado há décadas no tratamento do Parkinson. A principal inovação está na forma de administrar a levodopa.

Por que administrar levodopa continuamente?

Nas fases iniciais da Doença de Parkinson, as doses orais de levodopa geralmente produzem uma resposta mais previsível e prolongada.

Com a progressão da doença, alguns pacientes passam a apresentar:

  • redução da duração do efeito de cada dose;
  • retorno dos sintomas antes do próximo horário;
  • períodos OFF frequentes ou imprevisíveis;
  • alternância entre lentidão e movimentos involuntários;
  • necessidade de várias tomadas ao longo do dia;
  • dificuldade para controlar os sintomas durante a noite ou ao despertar.

Essas oscilações podem ocorrer porque o cérebro perde progressivamente a capacidade de armazenar e regular a dopamina. Além disso, medicamentos administrados por via oral dependem do esvaziamento gástrico, da absorção intestinal e da interação com alimentos.

A infusão subcutânea contínua procura fornecer levodopa de maneira mais regular, diminuindo os picos e as quedas relacionados às doses orais.

Como a medicação é administrada diretamente no tecido subcutâneo, ela não depende da passagem pelo estômago. De acordo com a documentação regulatória, a alimentação não modifica a absorção ou a exposição sistêmica da levodopa e da carbidopa administradas por esse sistema. (FDA Access Data)

Como funciona a bomba de foslevodopa?

A medicação é colocada em uma bomba portátil conectada a um pequeno conjunto de infusão.

Uma cânula é posicionada no tecido subcutâneo, geralmente no abdômen. A bomba administra a medicação continuamente, de acordo com uma programação individualizada.

O sistema pode permitir:

  • uma taxa contínua basal;
  • ajustes de velocidade previamente programados;
  • doses adicionais em situações selecionadas;
  • redução da velocidade durante determinados períodos, como à noite;
  • adaptação da quantidade de levodopa às necessidades de cada paciente.

A dose inicial é calculada com base na quantidade total de levodopa que o paciente utilizava anteriormente. Depois, são realizados ajustes conforme a resposta clínica, os períodos OFF, as discinesias e os possíveis efeitos adversos. (FDA Access Data)

O paciente e, quando necessário, o cuidador precisam receber treinamento para preparar o sistema, operar a bomba, trocar os materiais e reconhecer sinais de problemas no local da infusão. A documentação oficial ressalta que o paciente deve conseguir utilizar o dispositivo sozinho ou contar com a assistência de um cuidador capacitado. (FDA Access Data)

A colocação da bomba exige cirurgia?

Não.

Diferentemente da estimulação cerebral profunda, conhecida como DBS, não há implantação de eletrodos no cérebro.

Também não é necessária a colocação de uma sonda permanente no intestino. A medicação é administrada por uma cânula posicionada no tecido subcutâneo.

Apesar de não ser uma terapia cirúrgica, ela exige:

  • uso diário da bomba;
  • cuidados de higiene e técnica asséptica;
  • rotação dos locais de aplicação;
  • acompanhamento periódico;
  • ajustes realizados pela equipe médica;
  • capacidade do paciente ou do cuidador para manejar o dispositivo.

Portanto, a ausência de cirurgia não significa que seja um tratamento simples ou indicado para todas as pessoas.

Quem pode se beneficiar da foslevodopa?

A foslevodopa/foscarbidopa é direcionada principalmente a adultos com Doença de Parkinson avançada e flutuações motoras que não estejam suficientemente controladas com o tratamento convencional.

Algumas situações que podem levar o neurologista a discutir uma terapia contínua incluem:

  • períodos OFF frequentes ou prolongados;
  • retorno dos sintomas antes da próxima dose;
  • flutuações imprevisíveis;
  • muitas doses de levodopa ao longo do dia;
  • discinesias que dificultam o ajuste dos comprimidos;
  • sintomas ao despertar;
  • impacto significativo na mobilidade e nas atividades diárias;
  • boa resposta à levodopa, mas com duração irregular.

A presença de um desses fatores, isoladamente, não confirma a indicação.

A avaliação deve considerar a resposta prévia à levodopa, a cognição, sintomas psiquiátricos, equilíbrio, risco de quedas, autonomia, condições da pele, suporte familiar e capacidade de utilização da bomba.

O que os estudos demonstraram?

Um estudo de fase 3 comparou a infusão subcutânea contínua de foslevodopa/foscarbidopa com levodopa/carbidopa oral de liberação imediata em 141 pacientes com Parkinson avançado.

Os participantes apresentavam resposta à levodopa, mas mantinham flutuações motoras inadequadamente controladas e pelo menos 2,5 horas de período OFF por dia.

Após 12 semanas, o grupo tratado com infusão contínua apresentou, em média:

  • aumento de 3,36 horas diárias de período ON sem discinesia problemática;
  • redução de 3,41 horas diárias de período OFF.

No grupo que recebeu levodopa/carbidopa oral de liberação imediata, os resultados foram, respectivamente, aumento de 0,85 hora de período ON sem discinesia problemática e redução de 0,93 hora de período OFF. As diferenças entre os grupos foram estatisticamente significativas. (FDA Access Data)

Esses números representam médias de grupos de pacientes. A resposta individual pode ser maior, menor ou insuficiente, e alguns pacientes podem interromper o tratamento por efeitos adversos ou dificuldades práticas.

Um estudo aberto com acompanhamento de 12 meses também observou manutenção das melhorias nos períodos ON e OFF, embora tenha registrado uma frequência relevante de eventos no local da infusão e interrupções do tratamento. (PMC)

Quais são as possíveis vantagens?

Quando bem indicada, a terapia pode oferecer:

  • administração mais regular de levodopa;
  • redução dos períodos OFF;
  • aumento do período ON sem discinesias problemáticas;
  • menor dependência do esvaziamento gástrico;
  • possibilidade de ajuste individual da infusão;
  • tratamento contínuo durante o dia e, em alguns casos, por 24 horas;
  • alternativa não cirúrgica para determinados pacientes.

O objetivo não é curar ou interromper a progressão da Doença de Parkinson. A proposta é melhorar o controle dos sintomas e reduzir as oscilações motoras.

Quais são os efeitos adversos e limitações?

Os eventos relacionados ao local da infusão estão entre os aspectos mais importantes do tratamento.

Podem ocorrer:

  • vermelhidão;
  • dor;
  • inchaço;
  • endurecimento da pele;
  • formação de nódulos;
  • irritação;
  • infecção ou celulite no local da aplicação.

Também podem ocorrer efeitos relacionados à levodopa e à estimulação dopaminérgica, como:

  • discinesias;
  • alucinações ou confusão;
  • sonolência;
  • episódios de início súbito do sono;
  • alterações do controle de impulsos;
  • hipotensão;
  • náuseas.

A bula regulatória também alerta para o risco de interrupção abrupta da terapia. Caso a bomba deixe de funcionar ou a infusão seja suspensa por tempo prolongado, pode ser necessário utilizar uma alternativa oral orientada previamente pela equipe médica. (FDA Access Data)

Por esse motivo, o paciente deve manter acompanhamento regular e saber como agir em caso de falha, desconexão ou interrupção do sistema.

Foslevodopa substitui todos os comprimidos?

Não necessariamente.

A terapia pode substituir parte importante da levodopa oral, mas o esquema completo deve ser individualizado.

Alguns pacientes podem continuar utilizando outras medicações para Parkinson. Também pode ser recomendada a manutenção de levodopa oral de liberação imediata como alternativa de segurança em caso de interrupção da bomba.

Nenhuma medicação deve ser retirada, substituída ou modificada sem orientação do neurologista.

Foslevodopa ou DBS: qual é a melhor opção?

Não existe uma única terapia avançada adequada para todos os pacientes.

A escolha entre foslevodopa/foscarbidopa, infusão intestinal, apomorfina, DBS ou manutenção do tratamento oral depende de fatores como:

  • tipo e intensidade das flutuações;
  • resposta à levodopa;
  • presença de tremor, discinesias e distonia;
  • idade biológica;
  • cognição e comportamento;
  • risco cirúrgico;
  • autonomia;
  • suporte do cuidador;
  • expectativas e objetivos do paciente.

Essas terapias não devem ser consideradas concorrentes de maneira simplificada. Cada uma possui indicações, vantagens e limitações específicas.

Perguntas frequentes

A foslevodopa cura a Doença de Parkinson?

Não. A foslevodopa atua no controle dos sintomas, mas não interrompe a progressão da doença.

A bomba fica implantada no corpo?

Não. A bomba é externa e portátil. Apenas uma pequena cânula permanece temporariamente no tecido subcutâneo.

O paciente pode tomar banho?

A bomba precisa ser desconectada conforme as orientações do fabricante e da equipe responsável. O tempo de interrupção deve ser controlado para evitar o retorno dos sintomas.

Qualquer paciente que utiliza muita levodopa pode receber a infusão?

Não. O número de doses é apenas um dos aspectos da avaliação. Cognição, sintomas psiquiátricos, condição da pele, suporte familiar e capacidade de manejo da bomba também precisam ser analisados.

A foslevodopa pode causar discinesias?

Sim. Como ocorre com outras formas de levodopa, doses excessivas podem provocar ou agravar discinesias. Geralmente, isso exige reavaliação e ajuste da infusão.

Conclusão

A foslevodopa/foscarbidopa representa uma nova possibilidade para pacientes com Doença de Parkinson avançada que apresentam períodos OFF, oscilações motoras e resposta irregular ao tratamento oral.

Sua principal característica é a administração subcutânea contínua de levodopa por meio de uma bomba portátil, evitando as oscilações associadas às doses intermitentes e à absorção gastrointestinal.

Entretanto, não se trata de um tratamento indicado para todos. A decisão depende de avaliação clínica detalhada, treinamento, acompanhamento especializado e participação ativa do paciente e de seus cuidadores.

▶️ Assista ao vídeo completo sobre foslevodopa e foscarbidopa

Nunca inicie, suspenda ou modifique medicamentos para Parkinson sem orientação médica.

Dr. Luis Felipe Berchielli Neurologista especialista em Doença de Parkinson e Distúrbios do Movimento CRM-SP 130.381 | RQE 64.195

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